Transferência

Comprei e não transferi em 30 dias: o que acontece agora

10 de setembro de 2026 · 5 min read

Resposta direta

Deixar de efetuar o registro do veículo no prazo de trinta dias é a infração do artigo 233 do CTB. Com a redação da Lei 14.071/2020, ela é média, não grave nem gravíssima, e a medida administrativa é a remoção do veículo, não a retenção. O prazo de 30 dias vem do artigo 123, parágrafo 1º, e corre para o comprador tomar as providências da expedição do novo Certificado de Registro, ou seja, dar entrada. O relógio do vendedor é outro: pelo artigo 134, ele tem 60 dias contados depois de expirado o prazo do comprador.

Passou dos 30 dias e a pergunta vira uma só: qual o tamanho do problema? A resposta curta é que ele é menor do que a maior parte dos conteúdos sobre o tema diz, e mais chato do que parece, porque a consequência mudou de natureza em 2020.

O enquadramento certo, e o que mudou em 2020

O artigo 233 do CTB(CTB, art. 233) descreve a conduta: deixar de efetuar o registro de veículo no prazo de trinta dias, junto ao órgão executivo de trânsito, ocorridas as hipóteses previstas no artigo 123.

Com a redação dada pela Lei 14.071/2020, a classificação e a medida administrativa são estas:

O que vale hoje
GravidadeMédia
MultaR$ 130,16
Pontos4
Medida administrativaRemoção do veículo

Trinta dias para dar entrada, não para concluir

O artigo 123, parágrafo 1º(CTB, art. 123, §1º) é preciso no verbo: o prazo é para o proprietário adotar as providências necessárias à efetivação da expedição do novo Certificado de Registro de Veículo. Não é para o documento estar pronto.

A conclusão depende de coisas fora do seu controle, e a principal é o artigo 128(CTB, art. 128): não se expede novo Certificado de Registro enquanto houver débitos fiscais e de multas de trânsito e ambientais vinculados ao veículo, independentemente da responsabilidade pelas infrações cometidas.

O encaixe é perverso: a dívida é do carro, não de quem a gerou, e o prazo do artigo 123 não para enquanto ela existir. É a combinação que transforma multa antiga do vendedor em infração do comprador.

Os dois relógios não começam juntos

É aqui que se decide quem responde pelo quê.

CompradorVendedor
Prazo30 dias60 dias
Começa quandoNa transferência de propriedadeQuando expira o prazo do comprador sem providência
BaseArt. 123, §1º, do CTB; no CRV de papel, também Resolução 1.027/2026, art. 26, §2ºArt. 134 do CTB, redação da Lei 14.071/2020; no CRV de papel, também Resolução 1.027/2026, art. 26, §§3º e 4º
Se falharArt. 233: infração média, com remoçãoResponde solidariamente pelas penalidades até comunicar

Na prática isso dá ao vendedor uma janela que pode chegar a cerca de 90 dias contados da venda, e não os 30 que muitos textos repetem. O prazo antigo do artigo 134, de 30 dias contados da venda, é redação anterior à Lei 14.071/2020.

A Resolução CONTRAN nº 1.027/2026(Resolução CONTRAN nº 1.027/2026, art. 26) traz os mesmos números para a ATPV do verso do CRV de papel: o novo proprietário tem trinta dias para apresentá-la ao Detran (artigo 26, parágrafo 2º), e o antigo, se o comprador não o fizer, tem sessenta dias para enviar a cópia autenticada, sob pena de responder solidariamente até o registro da comunicação de venda (parágrafo 4º). Quando a comunicação de venda é registrada eletronicamente, as duas partes ficam desobrigadas desses passos (parágrafo 10). O prazo do artigo 123 do CTB é lei, e a resolução não o altera. Ela está em vigor desde 18 de agosto de 2026 (artigo 61), revogou a Resolução 809/2020 (artigo 60) e dá aos órgãos de trânsito noventa dias para se adequar (artigo 58).

O que fazer agora, se o prazo já passou

  1. Confira os débitos do veículo antes de ir ao Detran

    Enquanto houver débito vinculado, o artigo 128 do CTB e o artigo 7º, inciso III, da Resolução 1.027/2026 impedem a expedição, e você paga a viagem sem resolver.
  2. Dê entrada mesmo em atraso

    A infração do artigo 233 já se configurou pelo tempo decorrido; adiar mais só amplia a exposição à remoção do veículo em abordagem.
  3. Guarde a data da transação

    É ela que baliza a contagem. Na venda digital, a data consta na própria ATPV-e (Anexo III da Resolução 1.027/2026).
  4. Se houver autuação duplicada, defenda-se

    O artigo 233 descreve conduta única. Mais de um registro sobre o mesmo fato é caso de defesa administrativa.

Duas datas resolvem quase tudo aqui: a da transação e a da entrada no Detran. Guardadas as duas, o resto é discussão sobre documento. O que a assinatura do vendedor já resolveu está em ATPV-e.

Perguntas frequentes

Qual a gravidade e a medida administrativa do atraso na transferência?

Infração média, com medida administrativa de remoção do veículo. É o artigo 233 do CTB com a redação dada pela Lei 14.071/2020. Antes dessa lei a classificação e a consequência eram outras, e é por isso que ainda circulam textos falando em infração grave ou em retenção do veículo. A diferença entre retenção e remoção não é semântica: remoção significa guincho e pátio, com as despesas que vêm junto.

Os 30 dias são para concluir a transferência ou para dar entrada?

Para dar entrada. O artigo 123, parágrafo 1º, fala em adotar as providências necessárias à efetivação da expedição do novo Certificado de Registro de Veículo. Isso importa porque a conclusão pode depender de fatores fora do seu controle, como um débito antigo que o artigo 128 exige quitar antes da expedição.

De quando conta o prazo quando a venda foi digital?

O CTB fixa o prazo na transferência de propriedade, sem amarrá-lo a reconhecimento de firma. Na venda digital, o modelo da ATPV-e traz a data da transação (Anexo III da Resolução CONTRAN nº 1.027/2026, item 2.2.5), mas ela só vale como comprovante de transferência depois que as assinaturas eletrônicas do antigo e do novo proprietário estão registradas no Renavam, e antes disso não produz os efeitos da comunicação de venda nem da transferência (artigo 27, parágrafo 3º). As duas assinaturas podem ocorrer em momentos diferentes (artigo 28, parágrafo 2º), e com ambas registradas a comunicação de venda é gerada automaticamente (artigo 28, parágrafo 4º). Por isso vale guardar a data da transação e a do registro da segunda assinatura. No CRV de papel, o artigo 26 exige assinaturas manuscritas com firma reconhecida por autenticidade, e o Tabelionato de Notas pode registrar a comunicação de venda eletronicamente, por plataforma homologada, na mesma data do reconhecimento (artigo 26, parágrafos 5º e 6º). A Resolução 809/2020, que regia esse rito antes, foi revogada, e os órgãos de trânsito têm até cerca de 16 de novembro de 2026 para se adequar à nova (artigo 58). Como cada Detran opera o próprio sistema, confirme a data que consta no seu processo.

O carro tem débito antigo do vendedor e eu não consigo transferir. O prazo para?

A norma não prevê suspensão do prazo por esse motivo, e o [guia de transferência de veículo](/guias/transferencia) reúne os documentos que o artigo 124 exige. O artigo 128 do CTB impede a expedição de novo Certificado de Registro enquanto houver débitos vinculados ao veículo, independentemente de quem cometeu as infrações (a Resolução CONTRAN nº 1.027/2026 repete a exigência no artigo 7º, inciso III), e o artigo 123, parágrafo 1º, não abre exceção para esse caso. Por isso a conferência de débitos pertence ao momento anterior ao fechamento do negócio, não ao depois.

Se eu atrasar, o vendedor fica livre?

Ao contrário: é o seu atraso que faz o relógio dele começar. O artigo 134 dá ao antigo proprietário 60 dias contados a partir do momento em que expira o prazo do artigo 123, parágrafo 1º, sem que o novo proprietário tenha tomado as providências. Enquanto ele não comunicar, responde solidariamente pelas penalidades até a data da comunicação.

Dá para ser autuado mais de uma vez pelo mesmo atraso?

O artigo 233 descreve uma conduta única, deixar de efetuar o registro no prazo, e o CTB não prevê autuação continuada para ela. O que a norma não resolve é como cada Detran gera a autuação na prática, se automaticamente no vencimento do prazo ou no momento em que a transferência é solicitada. Havendo mais de um registro sobre o mesmo fato, o caminho é a defesa administrativa, tratada em como recorrer de uma multa.

Fontes

  1. 1.CTB (Lei 9.503/1997), arts. 123, 128, 134 e 233, texto compiladohttps://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9503compilado.htm
  2. 2.Resolução CONTRAN nº 1.027/2026, registro, licenciamento e transferência (DOU de 18/08/2026), arts. 7, 26, 27, 28, 58, 60 e 61 e Anexo IIIhttps://www.gov.br/transportes/pt-br/assuntos/transito/conteudo-contran/resolucoes/resolucao10272026.pdf

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