ATPV-e: assinar no aplicativo já tira o carro do seu nome?
3 de setembro de 2026 · 11 min read
Resposta direta
Não, não só com a sua assinatura. Pela Resolução CONTRAN nº 1.027/2026, que em 18 de agosto de 2026 revogou a 809/2020, a ATPV-e só é considerada formalizada depois que as assinaturas eletrônicas do antigo e do novo proprietário são registradas no Renavam (artigo 27, parágrafo 3º), e é nesse momento que a comunicação de venda é gerada e registrada automaticamente (artigo 28, parágrafo 4º). O carro só muda de nome com a expedição do novo CRLV-e em nome do comprador (artigo 31). Cartório só aparece na ATPV do verso de CRV de papel, que exige firma por autenticidade dos dois (artigo 26); na ATPV-e a assinatura manuscrita é vedada (artigo 28, parágrafo 1º). Os órgãos de trânsito têm 90 dias da publicação para se adequar (artigo 58), até cerca de 16 de novembro de 2026, e nesse prazo os procedimentos da regra anterior seguem válidos.
A dúvida que trava a venda quase sempre é a mesma: assinei no aplicativo, o carro já saiu do meu nome? A resposta depende de dois detalhes: se o comprador também assinou, e em que suporte a autorização foi feita.
O que a ATPV-e é, na definição da norma
A Resolução CONTRAN nº 1.027/2026(Resolução CONTRAN nº 1.027/2026, art. 25) lista, no artigo 25, o que constitui comprovante de transferência de propriedade de que trata o inciso III do artigo 124 do CTB: a ATPV do verso do CRV de papel, a ATPV-e e outro instrumento eletrônico que o Contran regulamente para casos específicos. Ou seja, a ATPV-e ocupa o lugar do antigo recibo, que muita gente ainda chama de DUT.
Pelo parágrafo 1º do mesmo artigo, é o documento em que o antigo e o novo proprietário declaram estar de acordo com a transferência, responsabilizando-se pela veracidade do que declararam. E pelo Anexo III, item 2.2, ela traz a identificação do veículo e dos dois proprietários, as informações essenciais da operação, a data da transação, as assinaturas ou manifestações de concordância e um elemento eletrônico que permite validar a autenticidade e a integridade do documento.
Os caminhos, e só o de papel exige cartório
O que decide se você sai de casa é o suporte do certificado do carro.
| Caminho | Cartório? | Comunicação de venda | Base |
|---|---|---|---|
| ATPV-e, assinada eletronicamente pelos dois | Não, a assinatura manuscrita é vedada | Gerada e registrada automaticamente depois das duas assinaturas | Arts. 27 e 28 |
| ATPV no verso de CRV de papel válido | Sim, firma por autenticidade dos dois | Registrada pelo órgão de trânsito a partir da ATPV apresentada; se o comprador não apresentar, o vendedor encaminha cópia autenticada | Arts. 20 e 26 |
No caminho eletrônico, o artigo 28 exige que o antigo e o novo proprietário assinem com assinatura eletrônica avançada ou qualificada, em plataformas homologadas ou nas soluções que o artigo 47 autoriza sem homologação específica, entre elas as do Governo Federal. As duas assinaturas podem acontecer em momentos diferentes, e cada uma é registrada no Renavam na hora (parágrafo 2º).
O dono de CRV de papel também pode optar por desmaterializar o certificado antes de vender, pedindo ao tabelionato de notas ou ao Detran, e seguir o fluxo digital (artigo 20, parágrafo 5º, e artigo 8º, parágrafo 1º, inciso I). O reconhecimento de firma numa ATPV de papel ligada a certificado já desmaterializado não produz efeito (artigo 8º, parágrafo 5º).
A resolução não descreve o que acontece quando um dos dois não consegue assinar eletronicamente. Ela define a transferência convencional como a que depende de reconhecimento de firma em meio físico (artigo 14, parágrafo 1º), e esse é o rito do CRV de papel. Para quem tem CRV digital e não consegue assinar, o que está previsto é o canal notarial facultativo do artigo 47, parágrafo 1º, se o seu estado o oferecer.
Assinar já é comunicar? Só depois que os dois assinam
Pelo artigo 27, parágrafo 3º, a ATPV-e gerada só é considerada formalizada como comprovante de transferência depois do registro, no Renavam, das assinaturas eletrônicas do antigo e do novo proprietário. Antes disso ela não produz os efeitos da comunicação de venda nem os da transferência de propriedade. Registradas as duas assinaturas e concluídas as validações, o artigo 28, parágrafo 4º, manda gerar e registrar a comunicação de venda automaticamente, e o parágrafo 5º manda disponibilizar às duas partes a ATPV-e assinada e a comunicação.
Isso muda o peso do primeiro passo. Pedir a geração da ATPV-e no aplicativo é manifestar a intenção de venda (artigo 19, inciso II, e artigo 21, parágrafo 1º), e o artigo 19, parágrafo 1º, diz que a intenção não implica, isoladamente, a transferência da propriedade nem a alteração das responsabilidades ligadas ao veículo.
O caminho de papel tem outra lógica, no artigo 26. O comprador tem 30 dias para apresentar a ATPV ao órgão de trânsito (parágrafo 2º). Se não apresentar, o antigo proprietário deve providenciar a cópia autenticada (parágrafo 3º) e encaminhá-la ao órgão do registro em até 60 dias, sob pena de responder solidariamente pelas penalidades e reincidências até a data do efetivo registro da comunicação de venda (parágrafo 4º). O registro eletrônico da comunicação desobriga as partes desses três parágrafos (parágrafo 10), e o tabelionato pode fazê-lo por plataforma homologada, na mesma data do reconhecimento de firma (parágrafos 5º e 6º).
Os dois prazos, e por que eles não começam juntos
Assinar não encerra a história, porque o registro é ato do comprador. E cada lado tem um relógio próprio.
O artigo 123, parágrafo 1º, do CTB(CTB, art. 123, §1º) dá ao proprietário 30 dias para adotar as providências necessárias à efetivação da expedição do novo Certificado de Registro de Veículo. O verbo importa: providências para a expedição, ou seja, dar entrada, e não necessariamente concluir.
O artigo 134(CTB, art. 134), com a redação da Lei 14.071/2020, dá ao antigo proprietário 60 dias, contados a partir do momento em que expira o prazo do artigo 123, parágrafo 1º, sem que o novo proprietário tenha tomado as providências. O gatilho não é a data do recibo: é a falha do comprador.
O artigo 30 da Resolução 1.027/2026 liga ao artigo 134 o efeito do registro da comunicação de venda no Renavam. E o parágrafo único dele avisa que a comunicação não altera, por si só, a responsabilidade por tributos, multas e outras obrigações cuja atribuição seja definida em legislação específica.
Quem responde pelas multas nesse intervalo está detalhado em multa do carro que já vendi, e o encadeamento completo das duas obrigações está no guia de transferência de veículo.
O que trava mesmo assim: débito
Com IPVA ou multa em aberto, o problema aparece no novo certificado. O artigo 7º, inciso III, da Resolução 1.027/2026 exige, para expedir o novo Certificado de Registro de Veículo, a quitação dos débitos relativos a tributos, encargos e multas de trânsito vinculados ao veículo, independentemente da responsabilidade pelas infrações. O artigo 128 do CTB(CTB, art. 128) já dizia o mesmo, e independentemente da responsabilidade pelas infrações cometidas é a parte que pega.
O inciso II do artigo 7º acrescenta que restrições administrativas, judiciais ou cadastrais impeditivas também travam a expedição, e o artigo 24 não deixa registrar a comunicação de venda quando uma restrição assim impede a transferência. A resolução não diz se o débito, sozinho, impede a assinatura da ATPV-e, e o que o seu sistema barra antes é questão do Detran do registro.
O prazo de 30 dias do comprador corre enquanto isso. É por essa combinação que a dívida esquecida vira infração do artigo 233.
O carro que não aparece no aplicativo
Reclamação frequente, agora com outra base normativa. A Resolução 809/2020 só disponibilizava a ATPV-e para veículos registrados depois de 4 de janeiro de 2021. A 1.027 não repete esse corte por data: o artigo 27 prevê a geração da ATPV-e para veículos com Certificado de Registro de Veículo em meio digital, depois do registro da intenção de venda.
- carro com CRV de papel válido: a ATPV do verso continua sendo comprovante de transferência (artigo 25, inciso I), com firma dos dois (artigo 26), ou o dono desmaterializa o certificado antes e segue pelo fluxo digital (artigo 20, parágrafo 5º);
- carro com CRV digital em que a opção não aparece: a resolução não lista a causa, e o canal é o Detran do registro.
O que mudou com a lei de 2025
A Lei 15.153, de 26 de junho de 2025(Lei 15.153/2025), incluiu o parágrafo 4º no artigo 123 do CTB para permitir que a transferência de propriedade seja realizada integralmente por meio eletrônico, com três regras que importam:
- o contrato de compra e venda em meio eletrônico deve conter assinaturas eletrônicas qualificadas ou avançadas, na forma da Lei 14.063/2020 e das normas do CONTRAN (inciso I);
- o contrato digital assinado por comprador e vendedor perante o órgão máximo de trânsito da União tem validade em todo o território nacional e deve ser obrigatoriamente acatado por todos os Detrans (inciso II);
- a vistoria de transferência poderá ser feita em formato eletrônico, a critério do Detran do estado (inciso V).
O caminho, em ordem
Quite os débitos antes de assinar
O artigo 7º, inciso III, da Resolução 1.027/2026 e o artigo 128 do CTB travam a expedição do novo certificado, e o prazo do comprador corre mesmo assim.Veja se o certificado do carro é digital ou de papel
Com CRV digital, o caminho é a ATPV-e com assinatura eletrônica dos dois (artigos 27 e 28). Com CRV de papel, a ATPV do verso exige firma dos dois (artigo 26), a menos que o certificado seja desmaterializado antes.Confirme a comunicação depois que o comprador assinar
Pelo artigo 28, parágrafos 4º e 5º, ela é gerada sozinha e deve ficar disponível para você. A sua assinatura isolada não basta (artigo 27, parágrafo 3º). Confira no seu Detran se a venda já aparece comunicada.Se foi no papel e o comprador não apresentou, encaminhe a cópia autenticada ao Detran
O artigo 26, parágrafos 3º e 4º, põe essa obrigação no vendedor, em até 60 dias, e a responsabilidade solidária do artigo 134 vai até o registro efetivo da comunicação.
Assinar resolve a sua ponta. A outra é do comprador, e o relógio dele começa a correr no mesmo dia: comprei e não transferi em 30 dias.
Perguntas frequentes
Assinar a intenção de venda no aplicativo substitui a comunicação de venda?
Não. Pela Resolução CONTRAN nº 1.027/2026, o registro da intenção de venda é só a etapa preparatória e não altera, isoladamente, as responsabilidades ligadas ao veículo (artigo 19, parágrafo 1º). A ATPV-e gerada também não produz os efeitos da comunicação de venda antes de as assinaturas eletrônicas do antigo e do novo proprietário serem registradas no Renavam (artigo 27, parágrafo 3º). Registradas as duas e concluídas as validações, a comunicação é gerada e registrada automaticamente (artigo 28, parágrafo 4º). A Resolução 809/2020, que dava à assinatura do vendedor o efeito de comunicação nos casos do artigo 16 dela, está revogada. Como a transição vai até cerca de 16 de novembro de 2026 (artigo 58), confira no seu Detran se a venda já consta como comunicada.
Preciso reconhecer firma em cartório?
Só no CRV de papel. A ATPV do verso de um Certificado de Registro de Veículo físico válido exige as assinaturas manuscritas dos dois com reconhecimento de firma por autenticidade em tabelionato (Resolução CONTRAN nº 1.027/2026, artigo 26). Na ATPV-e a assinatura manuscrita é vedada e só se admitem assinaturas eletrônicas avançadas ou qualificadas (artigo 28, parágrafo 1º), então não há firma a reconhecer. A resolução ainda prevê que serviços notariais possam pedir autorização para disponibilizar e coletar a assinatura da ATPV-e como canal facultativo (artigo 47, parágrafo 1º): se isso existir na sua região, é opção, não exigência.
Qual é a multa de quem não transfere no prazo?
É infração média, não gravíssima. O artigo 233 do CTB, com a redação da Lei 14.071/2020, trata de deixar de efetuar o registro do veículo no prazo de trinta dias, e a medida administrativa é a remoção do veículo. Vale conferir esse ponto em qualquer conteúdo sobre o tema: é comum ver o valor da infração gravíssima atribuído ao artigo 233, e também ver valores de tabela anteriores à Lei 13.281/2016.
O carro não aparece no aplicativo para eu emitir a ATPV-e. Por quê?
A Resolução CONTRAN nº 1.027/2026 prevê a geração da ATPV-e para veículos com Certificado de Registro de Veículo em meio digital (artigo 27). Se o seu ainda tem CRV de papel válido, há dois caminhos: usar a ATPV do verso do papel, com firma dos dois (artigo 26), ou desmaterializar o certificado antes, no tabelionato de notas ou no Detran, e seguir pelo fluxo digital (artigo 20, parágrafo 5º, e artigo 8º, parágrafo 1º, inciso I). O corte por data da Resolução 809/2020, que só liberava a ATPV-e para veículos registrados a partir de 4 de janeiro de 2021, não consta da regra vigente. Se o seu carro já tem CRV digital e a opção não aparece, a resolução não indica a causa, e o canal é o Detran do registro.
Assinei a ATPV-e mas o comprador não aceitou. Dá para cancelar?
Dá, enquanto a comunicação de venda não tiver sido registrada. O artigo 29 da Resolução CONTRAN nº 1.027/2026 permite o cancelamento da ATPV-e por solicitação do proprietário nessa condição, e o pedido é feito na solução, sistema ou plataforma usada para gerá-la ou assiná-la (parágrafo 1º). Como a comunicação só é gerada depois das duas assinaturas (artigo 28, parágrafo 4º), quem assinou e viu o comprador não assinar ainda está nessa janela. Depois que a comunicação é registrada, o cancelamento só ocorre por decisão judicial, fraude ou erro material comprovado em processo administrativo, ou distrato formal dos dois antes da efetivação da transferência (parágrafo 2º).
Dá para assinar a ATPV-e com IPVA ou multa em aberto?
A Resolução CONTRAN nº 1.027/2026 não diz que o débito impede a assinatura, mas impede o novo certificado: o artigo 7º, inciso III, exige a quitação dos débitos relativos a tributos, encargos e multas de trânsito vinculados ao veículo, independentemente da responsabilidade pelas infrações, e o artigo 128 do CTB diz o mesmo. A comunicação de venda também não é registrada quando há restrição administrativa, judicial ou cadastral que impeça a transferência (artigo 24). Como o prazo de 30 dias do comprador corre do mesmo jeito, deixar débito para depois só atrasa a transferência.
Fontes
- 1.Resolução CONTRAN nº 1.027/2026, registro, licenciamento e transferência (DOU de 18/08/2026), arts. 7, 8, 14, 17, 19, 20, 21, 24 a 31, 36, 44, 47 e 58 a 61, e Anexo IIIhttps://www.gov.br/transportes/pt-br/assuntos/transito/conteudo-contran/resolucoes/resolucao10272026.pdf
- 2.Resolução CONTRAN nº 809/2020, CRLV-e e ATPV-e (Diário Oficial da União), revogada pela Resolução 1.027/2026https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/resolucao-contran-n-809-de-15-de-dezembro-de-2020-296178226
- 3.CTB (Lei 9.503/1997), arts. 123, 124, 128, 134 e 233, texto compiladohttps://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9503compilado.htm
- 4.Lei 15.153/2025, que incluiu o § 4º no art. 123 do CTBhttps://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2025/lei/l15153.htm
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